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Em: News
2021, 10 11

Luxo Laurel, a união que quer fazer a força das marcas de excelência portuguesas

O luxo está, por vezes, nas coisas mais simples.

Pense, por exemplo, nuns dentes de alho e numas folhas de louro: separados, podem até ter pouco valor para a maioria das pessoas, mas se os juntarmos e os alourarmos com um pouco de azeite e vinho branco, é quase como se enfiássemos Portugal dentro de uma frigideira. O cheiro que dela emana é único, uma marca inimitável da gastronomia nacional.

Mas o azeite é também um ótimo exemplo da diferença que ter uma marca forte e credível pode fazer, lembra Francisco Carvalheira, secretário-geral da Laurel, a novíssima associação portuguesa de marcas de excelência que é lançada na próxima semana, em Lisboa.

“Se vendermos azeite com uma marca portuguesa, vendemos a 6, 7 euros. Mas se entregarmos esse mesmo azeite a um italiano, ele põe-lhe uma marca mediterrânica e vende por 10 euros. É tudo uma questão de perceção.”

É para escrever uma história diferente que quase dezena e meia de empresas, incluindo a Amorim Luxury, o grupo Arié, a Renova, a Sogrape e a Vista Alegre, se juntaram para fundar a Laurel, uma aliança que quer promover a importância da criação, da qualidade e do know-how nacionais e impulsionar o reconhecimento internacional de marcas portuguesas de luxo e de excelência. “As marcas são o que permite captar valor para um país. Podemos ser excelentes a fazer coisas para terceiros, mas dessa forma não retemos o valor. Portugal tem um défice enorme de marcas, não tem nenhuma marca global. Há todo um trabalho que tem de ser feito”, explica Paulo Pereira da Silva, CEO da Renova e presidente da Laurel, que se apresenta ao público no dia 14. Irá reunir marcas e empresas de sectores como o das artes, da beleza, da cerâmica, do cristal e do vidro, do design e da arquitetura, da gastronomia, da hotelaria, da joalharia e da moda, entre outros.

“Queremos captar o valor do nosso savoir faire para o país, e as marcas são o centro de tudo. Há muitas indústrias e muito artesanato que provavelmente não irão sobreviver se não tiverem uma marca em cima. Falo, por exemplo, dos bordados, da ourivesaria ou do artesanato em vime”, afirma o empresário, que, em março, foi um dos primeiros signa tários do movimento Marcas por Portugal. “Sabemos o nome dos prateiros franceses do século XVIII, mas no século XVII tínhamos prateiros melhores, se calhar os melhores do mundo, e não deve haver um único português que saiba o nome deles.” Francisco Carvalheira dá dois outros exemplos: “Portugal tem um dos melhores estaleiros de construção de veleiros do mundo e poucos portugueses o conhecem. E sabe qual é o país que tem mais medalhas na canoagem? Somos nós, claro, graças aos caiaques Nelo.”

Ajudar a preservar esse artesanato “perfeitamente espetacular” que pode estar em vias de extinção é, por isso, um dos objetivos da associação, que está a preparar a candidatura a fundos comunitários no âmbito da Plataforma Europeia de Inovação. Criada pela Aliança Europeia das Indústrias Culturais e Criativas (ECCIA, na sigla em inglês), esta rede irá facilitar o acesso aos fundos de €2,3 mil milhões destinados aos sectores cultural e criativo.

Aposta na formação

Para além da partilha de experiências entre associados e com associações europeias congéneres, como o Comité Colbert, de França, o Círculo Fortuny, de Espanha, ou a Altagamma, de Itália, a Laurel quer apostar forte na formação em domínios como a cria ção e gestão de marca, propriedade industrial e direitos de autor, gestão da excelência e do luxo e processos de internacionalização. Aos associados, a aliança promete ainda o acesso a uma rede privilegiada de contactos, uma presença estruturada nos media, o desenvolvimento de parcerias de negócio e de oportunidades de expansão internacional, a criação de uma plataforma de vendas diretas e uma voz mais forte no plano político. E pretende ainda fundar um observatório das marcas portuguesas Paulo Pereira da Silva, da Renova, é um dos dinamizadores, Amorim Luxury, Vista Alegre, Renova, Sogrape e grupo Arié são alguns dos fundadores da associação que é apresentada na próxima semana, em Lisboa A criação de um observatório das marcas portuguesas de luxo e de excelência é um dos objetivos da Laurel de luxo e de excelência e instituir o Prémio Laurel, para distinguir anualmente uma marca nacional.

“Para se fazer este caminho de excelência são precisas duas coisas: tempo e capacidade de investir. São as duas pernas que constituem uma marca, sem isso ela não consegue andar. Barato e bom não existe”, nota Francisco Carvalheira, que nas últimas duas décadas tem estado ligado à aviação executiva. “Diariamente, recebo exemplos de coisas fantásticas que fazemos em Portugal, só que ninguém as conhece. Temos um potencial brutal, 600 anos de história a fazer coisas, e temos de aproveitá-lo. Um país que não se preocupa com o passado também não constrói o futuro.”

A Laurel foi formalmente constituída no início de 2020, mas a pandemia de covid-19 atrasou a sua apresentação pública. O evento de lançamento ocorre na próxima quarta-feira, no Hotel Ritz, em Lisboa, numa conferência, já esgotada, sobre o presente e o futuro das marcas portuguesas de excelência, que terá como oradores o filósofo francês Gilles Lipovetsy e o economista português Sérgio Rebelo.

Jornal Expresso 09/10/2021